Se você já tentou consertar uma placa, montar um circuito ou entender por que um relé não arma, você já esbarrou neles: transistores. Eles servem principalmente para duas coisas: chavear (liga/desliga cargas) e amplificar (aumentar sinais). Neste guia, você vai entender o funcionamento na prática, o que medir na bancada e como evitar os erros mais comuns.
O que é um transistor (sem enrolação)
Um transistor é um componente que permite controlar uma corrente maior com uma corrente (ou tensão) menor. Na prática, ele vira:
- Uma chave eletrônica: controla motor, relé, LED, solenóide, etc.
- Um amplificador: pega um sinal fraco (microfone, sensor) e aumenta.
- Um controlador de corrente/tensão: reguladores, limitadores, fontes.
Tipos principais: BJT vs MOSFET
1) BJT (Transistor Bipolar)
Tem três terminais: Base (B), Coletor (C) e Emissor (E). A ideia central: uma pequena corrente na base controla uma corrente maior no coletor.
2) MOSFET
Também tem três terminais: Gate (G), Drain (D) e Source (S). A diferença: ele é “controlado por tensão” no gate (quase sem corrente contínua), por isso é muito usado em fontes chaveadas, inversores e cargas maiores.
Entendendo o BJT: NPN e PNP (o “sentido” importa)
NPN
- Normalmente usado como chave “no lado de baixo” (low-side): carga vai no coletor, emissor vai ao GND.
- Para conduzir: a base precisa estar ~0,6V a 0,7V acima do emissor (Vbe).
PNP
- Normalmente usado como chave “no lado de cima” (high-side): emissor no positivo, carga no coletor.
- Para conduzir: a base precisa estar ~0,6V a 0,7V abaixo do emissor.
3 regiões importantes (isso muda tudo no conserto)
- Corte (OFF): transistor “desligado”, corrente praticamente não passa.
- Ativa (amplificação): transistor “meio ligado”, usado para amplificar sinais.
- Saturação (ON total): transistor “ligado de verdade”, usado como chave (Vce bem baixo).
Animação 1: NPN como chave (LED/carga liga e desliga)
Aqui você vê o transistor NPN controlando uma carga. Quando entra corrente na base, ele satura, a corrente principal passa do coletor para o emissor e a carga “liga”.
Como dimensionar o resistor da base (modo prático)
Em chaveamento, uma regra prática é forçar saturação usando um “ganho” conservador: β forçado ≈ 10. Ou seja, faça:
- IB ≈ IC / 10
- RB ≈ (VIN − 0,7) / IB
Exemplo rápido: se a carga puxa 200 mA, tente base com ~20 mA (se o seu sinal/driver suportar). Se for microcontrolador, geralmente não dá 20 mA com folga; aí você usa transistor intermediário ou vai de MOSFET.
Animação 2: BJT amplificando (região ativa e inversão de fase)
No amplificador mais clássico (emissor comum), pequenas variações na base causam variações maiores no coletor. O detalhe que confunde muita gente: o sinal no coletor sai invertido.
Animação 3: por que “um pouquinho” na base vira “muito” no coletor
O BJT tem ganho de corrente (β / hFE): uma corrente pequena de base gera uma corrente maior no coletor. Na vida real, β varia com temperatura, corrente e modelo — por isso, para chaveamento, a gente usa β forçado.
Parâmetros que você deve respeitar (para não queimar)
- Vce máximo: tensão máxima entre coletor e emissor.
- Ic máximo: corrente máxima de coletor.
- Pd (potência): quanto ele consegue dissipar (aquecimento!).
- Vce(sat): queda de tensão quando ele está saturado (define perdas).
- hFE/β: ganho de corrente (varia muito; não trate como fixo).
Erros comuns (que dão defeito e enganam no diagnóstico)
- Sem resistor na base: pode queimar a saída que está dirigindo a base.
- Relé sem diodo de flyback: o pico reverso do relé derruba e queima transistor.
- Transistor subdimensionado: aquece e entra em fuga térmica ou abre curto.
- Trocar transistor sem achar a causa: curto na carga, fonte alta, driver errado… ele queima de novo.
Como testar transistor com multímetro (modo diodo)
Para BJTs, pense nele como duas junções PN. No modo diodo:
- No NPN, medindo da base para emissor e da base para coletor, você costuma ver algo perto de 0,55 a 0,75V (dependendo do tipo).
- No sentido contrário, deve dar “aberto” (OL).
- Entre coletor e emissor, geralmente não deve conduzir como diodo (em geral OL nos dois sentidos, dependendo do circuito).
Resumo MOSFET (pra quando o BJT não aguenta)
- MOSFET é ótimo para correntes maiores e perdas menores.
- Gate é controlado por tensão, mas precisa de nível adequado (ex.: “logic level” para 5V/3,3V).
- Proteção e layout importam muito em fonte chaveada (picos e ruídos).
Conclusão
Se você entendeu corte, ativa e saturação, você já “destrava” 80% do que aparece em manutenção e projetos. O transistor deixa de ser “mágica” e vira um componente previsível: você sabe quando ele deve estar desligado, quando deve saturar e quando deve amplificar.
Quer o próximo post? Eu posso criar mais animações no mesmo padrão para: ponte retificadora, capacitor RC, zener regulando e MOSFET em PWM. É só você pedir qual tema.